22 de abril de 2014

Mesa Dividida

Minha maneira de trabalhar se propõe a criar todo um universo particular inspirado na personalidade e história do cliente, para então torná-lo realidade. Peça por peça, componente por componente. E a Mesa Dividida é o primeiro móvel que crio/ assino para produção em série, tendo sido concebida para participar da compilação de móveis modernistas no "Ap porta-joias" _ de uma psicanalista.
A mesa, metade em aço inox e metade em latão, com uma travessa preta conectando as partes prateadas e douradas _ quando vista de um lado parece toda prateada e do outro, toda dourada. Recebe o nome de "Dividida" em homenagem ao Sujeito Dividido, um conceito criado por Jacques Lacan. Em um breve drops psicanalítico, tal conceito se refere ao sujeito do inconsciente, sujeito dividido pela linguagem, presente em todos nós, e foi proposto pelo célebre psicanalista francês em um de seus Seminários que levaram à avanços sobre o legado de Freud.
A viabilidade técnica da peça, que deveria ter suas partes encaixadas devido à impossibilidade de solda entre os diferentes metais, foi vencida com primor por Ivar Siewers e sua Fábrica. Os cortes precisos e os aparufasamentos aparentes, intencionais, resultam impecáveis. Viva a competência! Viva Ivar e sua trupe!
A Mesa Dividida pode ser encomendada para entrega em Belo Horizonte e São Paulo (inicialmente). Será produzida pela Fábrica de Ivar, que como já contei aqui, é a única autorizada a fabricar a poltrona "Paulistano" de Paulo Mendes da Rocha, a poltrona "FDC" de Flávio de Carvalho, além de produzir as peças premiadas de Ivar, como a mesa "Stella". Portanto é uma honra, uma alegria só ter meu primeiro móvel produzido por eles.

Mesa Dividida   .   medidas: 260x100cm, H=72cm   .   preço sob consulta  . info@grampodesign.com.br
















Conexão aparafusada entre aço inox, latão e aço carbono com pintura eletrostática. O aparafusamento é sempre aparente na peça

















Protótipo em aço carbono para testes de fixação entre as partes, já que o móvel não possui soldas, apenas encaixes



Fotos da Mesa Dividida: Julie Arantes
Making of: Manoela Beneti

Curta o circuito

São Paulo é um mega hub/ imã de arte contemporânea, e no gancho da feira peso-pesado Sp Arte que acabou há alguns dias, exposições abriram em galerias, em eventos paralelos pela cidade. Se você não é  um profissional da área e quer se beneficiar da arte enquanto forma de pensar e ver o mundo, e estando em São Paulo, sugiro um passeio pelas galerias sediadas aqui. O que é a meu ver, uma abordagem muito mais produtiva e interessante do que ir à feira. Não que ela não seja um passeio divertido e um retrato fiel do mercado, mas o que sinto quando vou a eventos desse tipo é que a proposta expositiva sempre solapa a necessidade de respiro_em termos de tempo e espaço_ que arte precisa pra crescer nos corações e mentes. Não que arte não possa ser dessacralizada e estar em toda parte, inclusive num grande mercado de luxo, mas pra se beneficiar das reflexões que ela nos propõe, o tempo e o espaço precisam ser dilatados. Ou seja, pra falar do business, nada melhor que a feira, pra falar de arte, nada melhor que exposições nas galerias, museus e espaços de definição mais complexa, que podem ser considerados no limite entre um museu e uma galeria, como o surpreendente e vivo "Pivô"_ no edifício Copan.

Registro nas imagens abaixo o passeio pela Sp Arte 2014 e outros dois que amei. Pelo espaço Pivô, citado acima_ e outro, pela galeria Fortes Vilaça, da Barra Funda, onde está a  expo "Polvo" de Adriana Varejão. Nesse novo trabalho, que tem por trás 15 anos de pesquisa, Varejão aborda o tema diversidade racial brasileira a partir de uma caixa contendo 33 tubos de tintas _ esse é o objeto de arte matriz da exposição, e dá origem às outras obras. Na caixa, as cores são denominações de tons de pele, em nomes poéticos e inusitados como "Rosa sapecado", "Retinta", "Cabocla", "Chocolate", "Morenão". Utilizando essas cores, Varejão interfere em retratos seus feitos por outros artistas, com motivos gráficos que remetem às pinturas corporais indígenas. Um trabalho primoroso de síntese e reflexão sobre a miscigenação racial brasileira, com sensibilidade, delicadeza e sutileza. Soft power total...! Vá e sinta o que te desperta.

Exposição "Polvo" de Adriana Varejão, até dia 17/5/14 na Galeria Fortes Vilaça_ unidade da Barra Funda. Rua James Holland, 71, São Paulo. www.fortesvilaca.com.brTer a sex das 10 às 19h, sab 10 às18h. Grátis

Pivô: Edifício Copan. Av. Ipiranga, 200, lj 54, Centro, São Paulo. www.pivô.org.br
ter a sex de 13 às 20h, sab de 13 às 19h. Grátis exposição comemorativa de 25 Ano da Casa Triângulo até dia 27/04/14



Estar ao ar livre, na entrada da Sp Arte, no Ibirapuera



 Prédio da Bienal ocupado pela SP Arte 2014
                         



Obra de Leda Catunda no stand da galeria Fortes Vilaça



Detalhe da obra de Leda Catunda



Obra de Anish Kapoor




Margin of accident/ Running Gag de Damián Ortega, na White Cube




Trabalhos de Franz West e Julian Schnabel , da galeria Gagosian



Obra de Vik Muniz, Pictures of Magazine 2: Nimphes, after Claude Monet, 2013
da galeria Nara Roesler



Vik Muniz em Pictures of Magazine 2: Summer in the City, after Edward Hopper, 2012



Detalhe de trabalho de Vik Muniz



Obra de Sônia Gomes no stand da Mendes Wood



Leonora Weissman na AM galeria



Obra em um dos stands



Pintura dos Gêmeos



Beatriz Milhazes em Madame Caduvel, de 2006, ao custo de US$ 2.200.000,00





Edifício Copan

Espaço Pivô com exposição de 25 anos da Casa Triângulo


Pivô abrange espaço do pilotis do Copan


Exposição de 25 anos da galeria Casa Triângulo no Pivô






Obra da artista portuguesa Joana Vasconcelos no Pivô











Abertura da exposição "Polvo", de Adriana Varejão, na galeria Fortes Vilaça da Barra Funda





A caixa de tintas "Polvo"


Detalhe do conjunto de pinturas


Criança brincando com uma obra de Ernesto Neto










Vik Muniz na abertura da exposição de Adriana Varejão




31 de dezembro de 2013

Adeus 2013, um brinde ao Ano Novo!

A Grampo dá bye bye para 2013 e registra o lançamento do livro "Espaços Autonômos", da autora Kamilla Nunes, ocorrido no MAM do Rio de Janeiro em novembro. Estamos nessa publicação que reuniu vários espaços e iniciativas, mapeados pela autora, onde a arte é sempre motivo para compartilhar ideias e a vida. Em uma breve descrição, "O livro é uma pesquisa desenvolvida a partir do mapeamento de espaços autônomos brasileiros, também conhecidos como “espaços independentes”, “espaços autogestionados” e “espaços experimentais”, que ocupam um lugar estratégico na recepção, articulação e desenvolvimento da arte experimental no Brasil."
Estar no livro é bastante simbólico pra mim e conclui um ciclo muito importante de realização de exposições / exercícios de curadoria, desde meados de 2011. 

Então, um brinde ao vazio que o Ano Novo contém! Façamos dele o espaço para receber os próximos desafios e realizações, com amor e dedicação! 





14 de dezembro de 2013

Penetrantes da cidade-museu


Vista da instalação "Penetrável Genet",
em cartaz no Cemitério do Araçá até amanhã, dia 15/12


"Quasi-cinema" de Hélio OIticica projetado sobre monolitos
no instalação "Penetrável Genet", de Anna Ferrari e Celso Sim

Ainda é possível visitar um último e incrível suspiro da programação da X Bienal de Arquitetura de SP_ a mais competente em conteúdo e forma que já tivemos. Se antes as Bienais se concentravam em um espaço expositivo, essa deu um salto ao se espalhar em rede por inúmeros pontos de São Paulo, conectados pelo metrô, para tratar do tema que não quer calar e nos afeta diariamente: “Cidades: Modos de Fazer, Modos de Usar”, sob curadoria do arquiteto e crítico Guilherme Wisnik, com curadoria adjunta de Ana Luiza Nobre e Lígia Nobre.

O último suspiro a que me refiro é a instalação de arte urbana “Penetrável Genet”, que trata de temas como a vida, a morte, o prazer, a dor e a memória, com uma potência impessionante. Propõe ao visitante um passeio, guiado, pelo quase-não-lugar que é a necrópole_ no caso, o Cemitério do Araçá_ ao som de um poema de Hélio Oiticica, musicado, até a chegada ao Ossário Geral_ onde estão os restos mortais de vítimas da ditadura, jogadas, na época, numa vala-comum do cemitério Perus. Ali, os autores da obra_ a arquiteta Anna Ferrari e o artista Celso Sim_ introduziram monolitos de mármore onde se projetam imagens de um “quasi-cinema” de Hélio Oiticica e também da exumação dos corpos na época da transferência dos mesmos. O penetrante-visitante, na penetrável caixa de ossos–memória, está, portanto, imerso em uma experiência sensorial acionada pela música, pelo lugar insólito, pelas imagens, pelo subtexto histórico _  experiência que leva, a depender de cada um, a um feixe de percepções e elaborações que florescem dali em diante. E a contundência do trabalho, agora em seu cerne político, foi ainda mais potencializada por ter sido vandalizada na véspera de sua abertura. Os artistas, sabiamente, incorporaram o ataque ao trabalho e o que se vê é a instalação violada _ parte ruína assinada pela intolerância e violência. Violência de ontem e de hoje, revista e repetida ali.
Conceitualmente, Penetrável Genet  articula duas ideias. A que sugere o escritor francês Jean Genet em um texto, ao incentivar intervenções artísticas em cemitérios, e a do ideal Neoconcreto  _ mais fortemente em Hélio Oiticica e  Lygia Clark_ de colocar o visitante enquanto vetor e protagonista do acontecimento da obra de arte. Em outras palavras, o corpo presente na obra de arte_ que pode ser um espaço, uma indumentária, etc_ é quem dá vida a ela. A essas duas idéias se associa o tema político de denúncia sobre os horrores da ditadura_ assunto extremamente caro a Anna, uma das autoras. Neta do artista argentino León Ferrari (tido como dos mais provocadores e importantes do mundo ao tratar dos temas intolerância, guerras e religião católica), teve sua família perseguida pela ditadura argentina e perdeu um tio assassinado por ela (filho de León). E numa coincidência absurda, presenciou um ataque a uma exposição de seu avô durante sua abertura, em 2004 (o episódio envolveu ainda o à época cardeal Bergoglio_ hoje Papa Francisco_ que quis censurar a mostra, e é relatado no livro " O Caso Ferrari"). Mas se o fascismo odeia a arte e deixa sua herança, a arte deixa seu legado e sempre encontra uma maneira virtuosa e inteligente de se impor e denunciar. A grandeza de Penetrável Genet nos remete também a isso.

Nos disse Hélio Oiticica que “O Museu é o Mundo"; nos mostra isso Penetrável Genet na escala em que atua; nos propôs isso essa Bienal espalhada pela cidade, para que se fosse de encontro, com intensidade, ao organismo vivo da megalópole, com corpo presente, poros e olhos abertos para a caótica realidade construída _ consultando absurdos, relembrando outros, aprendendo com o passado e vendo o que está superado. Para então, a partir dessas escavações e visadas, podermos nos mover melhor no sentido quase inexplorado, dada nossa recente cultura urbana, de intervir e propor novos modos de fazer e de usar a cidade. Que é mundo, museu, palco pra vida_ plena de tragédias, mas também de possibilidades.
Penetrável Genet: em cartaz desde 05/11, vai só até amanhã 15/12, de 12h às 16h  .  Cemitério do Araçá ( Av. Dr Arnaldo, 666, Cerqueira César, Sp)  .  Metrô Clínicas
Inscrições gratuitas por email: enviar nome, data e horário para penetravel.genet@gmail.com até às 18h um dia antes da sessão escolhida e chegar 10 minutos antes. Vá de sapato confortável.


Invenção da Cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe, 1977_ obra de Hélio Oiticica no Museu Inhotim



Um parangolé de Hélio Oiticica, vivo através de seu visitante

30 de setembro de 2013

Ap porta-joias

Um apartamento suporte para a vida vibrante de uma psicanalista que divide seu tempo entre Belo Horizonte, o interior de Minas e o mundo, em rotas motivadas pelo trabalho e pelo amor. Um cubo/ volume branco como suporte de neutralidade ideal para ressaltar preciosidades. Arte _ com Amilcar de Castro em gravuras de fases distintas, mais um trabalho delicado em branco sobre tela branca de Nydia Negromonte e o colorido visceral e feminino de Gabriela Machado; E mobiliários _ de Lina Bo Bardi, Geraldo de Barros, Joaquim Tenreiro e Jorge Zalszupin, que trazem o rigor do desenho modernista. Arte de um lado, design de mobiliário de outro, tal qual a dialética que propõe a psicanálise, entre inconsciente e consciente. A mesa de jantar, batizada “Dividida”, de nome inspirado no conceito lacaniano de “sujeito dividido”, foi desenhada por mim (tema de próximo post) para ser visualmente leve e receber as pessoas generosamente em torno da amizade e da boa gastronomia.
Ap suporte para a vida, porta-preciosidades, no ritmo da vida.
( post parte integrante da narrativa " Manoela em Obras ". Para ver mais trabalhos acesse facebook.com/grampodesign )

Fotos: Jomar Bragança